Adele = Sensibilidade

adeleEm meio à tantos enlatados que a indústria fonográfica joga diariamente em nossos ouvidos, é bom encontrar tesouros reprimidos que ainda primam pela sensibilidade. Melhor ainda quando tais tesouros tornam-se descobertas maiores e passam a ser admirados pela massa (a mesma massa que tão facilmente se rende aos apelos da indústria cultural).

Adele Adkins é um desses casos… E na última semana alcançou um feito conseguido por poucos até então: igualou-se aos Beatles nas paradas de sucesso britânicas. Coisa para poucos...

Quem me apresentou Adele foi Alexandre Inagaki. Eu já tinha ouvido “Chasing Pavements”, mas para mim era apenas uma boa canção qualquer que alguma sortuda deu sorte de conseguir lançar em mais algum provável álbum de sucessos fáceis. Quanto engano....

Lá estava eu lendo o sempre interessante blog de Alexandre, cujo nome já é atrativo o suficiente para ao menos despertar a curiosidade dos internautas mais inquietos – Pensar Enlouquece – quando me deparo logo com um post pra lá de caprichado falando sobre uma tal de Adele. O título é que me cativou:  “Adele e o dom de fazer homens crescidos chorarem”. Fato é que as palavras de Alexandre me fizeram sentir uma fúria incondicional para conhecer melhor a moça. Foi acabar de ler o seu post para começar a ouvir o álbum, concentrada em cada melodia como há tempos eu não fazia. E não pude dormir ontem à noite antes de terminar... O resultado é que ela conseguiu até me tirar de minha ‘semana oitentista’ e agora tem, sem qualquer sombra de dúvida, mais uma fã.

Inglesa de vocais poderosíssimos, com apenas 23 anos Adele já mostra a que veio. Conhecida pela imprensa britânica como a nova “Amy Winehouse”, já que também segue o estilo meio ‘pop-retrô’ passeando pelas influências do jazz, é a primeira artista a ter dois álbuns e dois singles no Top 5 da parada britânica simultaneamente desde 1964, quando os Beatles dominavam todas as rádios.

Seu disco de estréia, “19”, trouxe para o mundo a conhecida “Chasing Pavements”. Agora é a hora e a vez de “21”. “Rolling in the Deep”, lançada no final de 2010, já prenunciava que “21” poderia ser um dos grandes destaques desse ano, e não deu outra.

 

 

Adele tem algo que falta à muitos compositores hoje: sensibilidade. Ela usa sua tristeza a seu favor, sutilmente, canalizando cada lágrima em um direcionamento criativo que resulta em fantásticas linhas traçadas da simplicidade dos fatos mais cotidianos. Ela fala do que vivemos todos os dias, sentimentos, amores perdidos, amores recuperados, amores que jamais serão esquecidos. Mas seu foco é, sem dúvida, a emoção.

“Ao falar sobre o processo de composição de 21, seu segundo álbum, Adele Adkins, esta mesmerizante cantora londrina de voz sinestesicamente iluminada, afirmou, com o peculiar humor dos ingleses: "Sou o oposto daqueles comediantes que são divertidos no palco e depressivos sob portas fechadas. Numa gravação posso até parecer triste, mas na vida real estou bem satisfeita. Só que, quando eu estou feliz, eu não escrevo músicas. Fico lá fora, rindo, vivendo um amor. Eu não teria tempo pra compor. Se eu estivesse casada, chegaria uma hora em que diria: 'Querido, eu preciso me divorciar, já se passaram três anos, eu tenho um disco pra escrever!'".” (trecho do post de Alexandre)

E ela deve ser mesmo uma pessoa muito bem resolvida, pois poucos são capazes de expor seus sentimentos sem qualquer restrição ou temor à opinião pública. E a composição de suas músicas acaba se tornando o melhor dos psicólogos (Taylor Swift também faz isso, conforme comentamos aqui, bem como outros milhares de artistas que ainda tem vestígios de sensibilidade e não se rendem ao escárnio da indústria fonográfica só para vender música fácil e de consumo imediato. Pelo contrário, artistas como Adele e Taylor perduram...)

Além de seu talento, a semelhança com Amy que a imprensa britânica adotou transparece em “If I Hadn’t Been For Love”. “Turning Tables” traz uma belíssima reflexão sobre as armas e barreiras que criamos para nos proteger das dores de amar. “Don’t You Remember” ressalta os efeitos de um final silencioso, em que buscar razões para compreender o fim do amor não resolvem o peso da ausência (e parece que podemos mesmo sentir mesmo a dor na voz de Adele – “Don’t you remember? / The reason you loved me before, / Baby please remember me once more”). “Take It All” segue a mesma linha, mas já com um tom mais amargo. Mas não se engane! Há também muitas faixas positivas e para cima, coisa que no primeiro álbum de Adele eram mais escassas… “I Found Boy”, por exemplo, é um grito de esperança simplesmente contagiante.;;

Mas a obra que coroa o álbum é “Someone like You”... Não é para menos que o single desbancou o hit “Born This Way”, de Lady Gaga e fechou a última semana to topo da parada britânica.

“Someone like you” é capaz de derrubar até mesmo os mais durões. E vai além disso. A faixa fala sobre um amor perdido, mas verdadeiro. Afinal, só quem ama de verdade é capaz de ver seus sonhos frustrados por terra, assumir sua dor e ainda desejar nada mais do que a felicidade para o outro, na vã esperança de um dia encontrar alguém que seja capaz de substituí-lo mesmo que apenas parcialmente...

 

 

Mérito para o Alexandre, que conseguiu traduzir com exatidão o sentimento que Adele é capaz de despertar no ouvinte. Aliás, acho que nesse caso a palavra certa nem seria ouvinte... Por que não, talvez, semelhante? Já que é isso que Adele é capaz de provocar em suas canções: semelhanças com tudo aquilo que sentimos e desejamos expressar mas não sabemos como. Pois é, ela sabe....

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(Machado de Assis)
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